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Núcleo de Pesquisa e Extensão em Gerenciamento de Recursos Hídricos
Comitê de Gerenciamento da Bacia Hidrográfica do Rio Pardo - Comitê Pardo

Boletim Informativo N.º 01/ Ano IX - Janeiro/2007

 


FONTE: LE MONDE DIPLOMATIC, março 2001.
Água, Geografia e Saúde
Brinckmann, Wanderleia E.
Profª do Departamento de História e Geografia da UNISC, Doutora em Geografia pela Universidad de Murcia - Espanha.
E-mail: webrin@unisc.br


"A água é um recurso finito e fator competitivo do mercado. Seu uso eficiente torna-se mais importante que ostentar sua abundância". (REBOUÇAS, 2001)

Um dos elementos que enriquece a discussão sobre Água e Saúde, a partir da Perspectiva Geográfica, refere-se à progressiva adoção de abordagens sistêmicas, complexas e dinâmicas para o tratamento das questões sócioambientais enfocando a explicação dos eventos em um contexto espaço-temporal definido, como por exemplo a bacia hidrográfica.

Distintos autores ressaltam o importante papel dos Geógrafos nos estudos que buscam minorar as conseqüências da especulação imobiliária urbana e rural, da degradação ambiental e do isolamento de amplos contingentes populacionais, completamente à margem de equipamentos coletivos como saneamento básico, transporte, rede de ensino, serviços de saúde, entre outros. O comprometimento da qualidade de vida dessas populações as torna vulneráveis a vários tipos de agravo, desde aspectos ligados à violência rural e urbana, passando por situações determinadas pelo baixo nível de instrução, condições objetivas de perigo por residirem em áreas consideradas “de risco”, até às dificuldades de sanarem pequenos problemas de saúde que se potencializam frente à falta de assistência. (CARVALHO et.al., 1997; MINAYO, 2002). Temos aí importantes campos para atuação de uma equipe interdisciplinar e multidisciplinar que, em sua atividade, terá a responsabilidade de tornar o território conhecido em vários de seus aspectos, investigando a história da população sob responsabilidade do serviço ou da rede de serviços de sanidade; as formas de uso e ocupação do solo e dos recursos naturais, entre eles, a água, bem indispensável à vida.

Na concepção mais atualizada de gestão do território e dos espaços públicos, esse processo pode ser conduzido com a participação de diferentes áreas do conhecimento e outros setores; no caso do município entre diferentes secretarias (saúde, obras públicas, assistência social, planejamento, etc.) de forma a tornar mais consistente tanto o diagnóstico como o encaminhamento de soluções, pela abrangência que tomam as ações na área da saúde integral da população: um campo de saberes e práticas que se constitui pela articulação de várias áreas e disciplinas, expressando-se através de modelos de atenção, organização de sistemas e estratégias de planejamento, gestão, educação, supervisão, avaliação, diagnóstico, entre outros. Neste campo, a Geografia tem lugar importante na medida em que atua na organização da vida humana através da conjugação entre cultura e natureza, balisando-a na noção de território. Seu instrumental teórico-metodológico é valioso para compreender uma série de fenômenos que dizem respeito à saúde e qualidade de vida das populações e, conseqüentemente, como definir os meios de alterar realidades adversas (BRINCKMANN, 2005).

No caso específico da saúde, um aspecto importante observado por muitos estudos principalmente em populações de baixa renda das áreas rurais e dos centros urbanos é o do desenraizamento, que produz núcleos populacionais em que os elos de identidade cultural já não são mais constituídos pelos elementos simbólicos de origem de seus habitantes. Estes, estão dissolvidos em favor da estruturação de estratégias de sobrevivência que produzem novos laços, aspectos importantes a ser investigados de forma a reduzir a margem de incerteza na organização das ações em saúde porque, “a promoção da saúde consiste em proporcionar às pessoas os meios necessários para melhorar sua saúde e exercer um maior controle sobre a mesma”. (Carta de Ottawa, 1986). Os riscos para a saúde relacionados à utilização da água se dividem em duas categorias:

1) Riscos relacionados com a ingestão de água contaminada por agentes biológicos (bactérias, vírus e parasitas), através de contato direto, ou por meio de insetos vetores que necessitam da água em seu ciclo biológico;

2) Riscos derivados de poluentes químicos e radioativos, geralmente efluentes de esgotos industriais, ou causados por acidentes ambientais.

Os principais agentes biológicos encontrados nas águas contaminadas são as bactérias patogênicas, os vírus e os parasitas. As bactérias patogênicas encontradas na água e/ou alimentos constituem uma das principais fontes de morbidade e mortalidade em nosso meio. São responsáveis por numerosos casos de enterites, diarréias infantis e doenças epidêmicas (como o cólera e a febre tifóide), que podem resultar em casos letais.

Ameaçada pela poluição, pela contaminação e pelas alterações climáticas que o ser humano vem provocando, a degradação ambiental da água representa um grande perigo para a saúde e o bem-estar do homem, sendo apontada pela Organização Mundial de Saúde (2000) como importante ameaça ao desenvolvimento econômico.

De acordo com o relatório “Situação Global de Suprimento de Água e Saneamento - 2000”, apesar do tremendo esforço nas duas últimas décadas para melhorar os serviços de abastecimento de água e saneamento nas regiões mais pobres dos países em desenvolvimento, muita gente ainda não foi beneficiada. hoje, 2,4 bilhões de pessoas em todo o mundo (quase a metade da população do planeta) não vivem com condições aceitáveis de saneamento, enquanto 1,1 bilhão de pessoas não têm sequer acesso a um adequado abastecimento de água. O documento, concluído em novembro de 2000, resulta do Programa de Monitoramento do Suprimento de Água e Saneamento, uma iniciativa conjunta da OMS e da Unicef. (www.who.int/inf-pr-2000/en/pr2000-73.html).

Diante deste quadro, a Organização Mundial da Saúde (OMS, 2000) e seus países membros, destacam que a água tem influência direta sobre a saúde, a qualidade de vida e o desenvolvimento do ser humano, tanto é assim, que para “todas as pessoas, em quaisquer estágios de desenvolvimento e condições sócio-econômicas têm o direito de ter acesso a um suprimento adequado de água potável e segura”.

“Segura”, neste contexto, refere-se a uma oferta de água que não representa um risco significativo à saúde, que é de quantidade suficiente para atender a todas as necessidades domésticas, que está disponível continuamente e que tenha um custo acessível. Estas condições podem ser resumidas em cinco palavras-chave: qualidade, quantidade, continuidade, cobertura e custo. Se o objetivo é melhorar a saúde pública é vital que tais condições sejam consideradas como um todo no momento de se definir e manter programas de qualidade e abastecimento de água. Ainda assim, a prioridade será sempre, providenciar e garantir o acesso de toda a população a alguma forma de suprimento de água.


Referências e dicas para leitura:

- Água e Saúde”, “A Desinfecção da Água”, “A proteção das captações”, “Vazamentos e medidores”, folhetos da série “Autoridades Locais, Saúde e Ambiente”, editados pela OPAS. <www.cepis.ops-oms.org>, 2000.

- BRANCO, Samuel Murgel. Água, Origem, Uso e Preservação, Editora Moderna,1996.

- BRINCKMANN, W. E.(2005). Paradigmas de la gestión de águas em España y Brasil. Estúdio Comparativo. Tesis doctoral. Programa de Doctorado Paisaje, Território y Medio Ambiente. Universidad de Murcia, Murcia, Espana. 636p.

- CARVALHO, Marília Sá, CRUZ, Oswaldo Gonçalves (1997). Análise espacial por microáreas: métodos e experiências. In: BARATA, Rita Barradas; BARRETO, Maurício Lima; ALMEIDA FILHO, Naomar; VERAS, Renato Peixoto (Orgs., 1997). Epidemiologia: contextos e pluralidade. . Rio de Janeiro: ABRASCO – Série Epidemiológica 4. p. 79-89.

- CORVALAN, Carlos (2005). Saúde e Ecossistemas na Avaliação Ecossistêmica do Milênio. Departamento de Proteção do Meio Ambiente Humano. Organização Mundial da Saúde - World Health Organization – Genebra. Brasília, 30 Março, 2005.

- Informações sobre doenças infecciosas são encontradas no endereço
<www.who.int/home/map_ht.html#Diseases:%20Communicable/Infectious>.

- Informações sobre doenças tropicais e doenças preveníveis por meio de vacina.
<www.who.int/home/map_ht.html#Tropical%20Diseases>.

- MINAYO, M.C.S. & Miranda, A (Orgs., 2002). Saúde e ambiente sustentável: estreitando nós. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz.

- REBOUÇAS, Aldo. Água e desenvolvimento Rural. Estud. av. vol.15 no.43 São Paulo Sept./Dec. 2001.

- Programa de Monitoramento do Suprimento de Água e Saneamento, uma iniciativa conjunta da OMS e da Unicef. <www.who.int/inf-pr-2000/en/pr2000-73.html>

- WWAP-UNESCO División de Ciencias del Agua (2006). El agua,una responsabilidad compartida. 2 ° Informe de las Naciones Unidas sobre el desarrollo de los recursos hídricos en el mundo. In: <UN-WATER/WWAP/2006/3> y <www.unesco.org/water/wwap/index_es.shtml>.

- UNESCO. (2000). Declaración Ministerial de Haya sobre seguridad hídrica en el siglo 21. Foro Mundial del Agua. Haya, 22 de abril.

- UNESCO/WWAP. (2003). Agua para Todos, Agua para la Vida - Informe de las Naciones Unidas sobre el Desarrollo de los Recursos Hídricos en el Mundo. UNESCO/Mundi-Prensa Libros. Edición española. ISBN: 92-303881-5.


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