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Núcleo de Pesquisa e Extensão em Gerenciamento de Recursos Hídricos
Comitê de Gerenciamento da Bacia Hidrográfica do Rio Pardo - Comitê Pardo

Boletim Informativo N.º 5/ Ano V - Maio/2003

 

A Guerra pela Água

 

Texto: Valéria Borges Vaz (val@unisc.br)
Revisão: Ana Paula Machado (aninha_bio@hotmail.com)

Os Estados Unidos e o Iraque atualmente estão em guerra pelo controle das maiores reservas de petróleo do mundo. O Brasil está longe dessa disputa, embora sofra os reflexos em sua economia. Conforme as previsões sobre as próximas guerras, o Brasil não escapa de ser o alvo, pois a água será o próximo bem econômico com motivos de muitas discussões. Em 1996, a escassez de água já era apontada pela ONU como causa de guerras. Os rios Nilo, Tigue e Eufrates eram focos de tensão, disputados pelo Egito, Etiópia, Síria, Iraque e Turquia.

A luta pelo controle da água é uma das causas de crise que vem envolvendo israelenses e palestinos. Israel controla o aqueduto que deveria servir os dois lados, fornecendo metade da água potável consumida pelos israelenses. Os fazendeiros palestinos dependem da boa vontade de Israel em fornecer água para irrigar suas terras, já que perfurar poços é proibido. Os residentes árabes nos territórios ocupados só recebem água duas vezes por semana. Recentemente, Israel ameaçou agir contra o Líbano, caso o país concretize planos de bloquear o fluxo do rio Jordão e o Egito ameaçou bombardear a Etiópia e o Sudão, se fosse construída uma barragem no rio Nilo.

Há pouco tempo a ONU declarou que 2,7 bilhões de pessoas vão sofrer de severa falta de água até 2025, se o consumo continuar no ritmo atual. Considerando ainda que, continuam sendo bombeadas enormes quantidades de água dos reservatórios subterrâneos, sem que os mesmos consigam se recuperar naturalmente.

Apenas 10% da água consumida no mundo é destinado ao consumo doméstico. A agricultura consome 70%, onde mais da metade desse volume se perde com a evaporação ou escoamento. A irrigação por gotejamento gasta de 30% a 70% menos água que os métodos convencionais e aumenta a produtividade das plantações, mas é empregada em menos de 1% das terras irrigadas. A indústria consome os 20% restantes da água, muitas vezes com grande ineficiência.

Muitos acreditam que a solução para resolver o problema da escassez de água é fazer a dessalinização da água marinha, mas devido ao seu alto custo, a conservação da quantidade e qualidade de água doce ainda é a escolha mais vantajosa.

De um lado, os organismos internacionais defendem a necessidade de considerar a água como uma mercadoria com valor econômico. De outro, os movimentos sociais querem o controle público dos mananciais e entendem que a água é um direito fundamental do ser humano. A questão é bastante delicada, pois como a distribuição mundial de reservas de água doce é desigual a sua exploração torna-se economicamente promissora.

A previsão da guerra pela água, embora alarmista, preocupou os participantes do Fórum Mundial das Águas realizado em março deste ano, em Kyoto, no Japão. Por isso, foi proposta a criação de uma Comissão de Água, Paz e Segurança para mediar conflitos existentes ou os que possam ocorrer devido a exploração dos recursos hídricos, sobretudo nos casos dos rios e aqüíferos que ultrapassam as fronteiras nacionais.

Por isso, os países do Mercosul estão no centro das atenções. O Brasil é o 25° país no ranking mundial de volume per capita de água disponível, possuindo 71% do Aqüífero Guarani, considerado o maior manancial de água doce subterrânea do mundo. Formado há 250 milhões de anos e com um volume de 45 trilhões de m3 de água potável, mineral e térmica, que seria suficiente para abastecer a população brasileira por 3.500 anos.

A ONU lançou neste ano o Ano Internacional da Água Doce, que tem por objetivo a defesa das águas e a definição de um plano de mobilização da sociedade civil em que sejam inseridos os problemas locais em um quadro mundial de disputa pelo controle das reservas hídricas.

No Fórum Social das Águas realizado em Cotia, São Paulo, de 16 a 23 de março deste ano, a ênfase foi dada para os programas de educação ambiental com prioridade de ação na Amazônia, Bacia do Prata, Aqüífero Guarani e águas oceânicas. Em 2004, a Campanha da Fraternidade terá como tema "Água, Fonte de Vida" e os ambientalistas querem ampliar a participação popular nos Comitês de Bacias Hidrográficas.

O relatório do Banco Mundial "Financiando Água para Todos" estimam que o investimento anual deveria passar de 75 para 180 bilhões de dólares para alcançar os Objetivos de Desenvolvimento para o Milênio, estabelecidos na Assembléia Geral das Nações Unidas em 2000.

Segundo Leonardo Morelli, coordenador do Fórum Social das Águas da América Latina, "a água não pode ser incluída em tratados econômicos que fixam regras para a inserção dos países e determinam os modelos de gestão. A questão da água é muito mais explosiva que qualquer outro fator econômico".

Assim, quanto mais mobilizada e envolvida a população estiver em relação à gestão da sua bacia hidrográfica a resolução dos conflitos se torna mais fácil e justa para todos. E os Comitês de Bacias são os parlamentos das águas, que oferecem este espaço para discussões, no sentido de minimizar as diferenças existentes nos mais diversos usos dos recursos hídricos e a sua importância vem tomando proporções maiores a cada ano que passa, ou pelo menos a medida em que os conflitos aumentam.

Bibliografia:
Montaigne, Fen. Água sob pressão. Revista National Geographic. Ano 3. Nº 29, setembro 2002. P. 50-81.

Sandri, Sinara. Água: um grande negócio. Jornal Extra Classe. P. 16-18.



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