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Núcleo de Pesquisa e Extensão em Gerenciamento de Recursos Hídricos
Comitê de Gerenciamento da Bacia Hidrográfica do Rio Pardo - Comitê Pardo

Boletim Informativo N.º 12/ Ano VIII - Dezembro/2006

 

Externalidades da cultura do tabaco na bacia do Rio Pardinho/RS
Texto: Mizael Dornelles1

Os danos originados pelos produtos derivados do tabaco, que causam dependência e são nocivos a saúde das pessoas, estão com os seus dias contados. Esta é a proposta da OMS (Organização Mundial da Saúde), erradicar estes produtos através de um instrumento legal, sob a forma de um tratado internacional (Convenção Quadro para o Controle do Tabaco). Frente a esta discussão a produção do tabaco parece não receber a mesma atenção, uma vez que os impactos causados ao meio ambiente e aos agricultores produtores de tabaco são irreversíveis, devido aos altos índices de substâncias químicas sintéticas introduzidas nestas lavouras. Preocupados em contribuir com uma pesquisa que preenchesse a lacuna existente sobre o assunto, uma equipe interdisciplinar e interinstitucional (UNISC, UNICAMP e UFRJ), contando com o apoio financeiro do IDRC (International Development Research Centre) do Canadá, apresenta uma obra com os resultados da pesquisa "O impacto da cultura do tabaco no ecossistema e na saúde humana na região de Santa Cruz do Sul/RS", realizada no período de 1999 a 2003 na bacia hidrográfica do Rio Pardinho/RS, mais específicamente nos municípios de Gramado Xavier, Sinimbu e Santa Cruz do Sul. A finalidade da pesquisa como está explícito no título é avaliar os impactos no meio ambiente e na saúde dos agricultores e suas famílias, causados pela exposição a substâncias tóxicas utilizadas na cultura do tabaco.

Neste sentido, cabe salientar que a região caracteriza-se pela histórica e marcante produção de tabaco, desde o período de sua colonização (1849) aos dias atuais. Com os avanços da globalização da economia, nas últimas décadas as companhias transnacionais passaram a procurar novos mercados, de consumo e produção, em países periféricos onde os custos de produção são reduzidos, e ainda apresentam os maiores índices de consumo dos derivados do tabaco, instalando-se em regiões como a referida. A partir das décadas 1960 e 1970 é introduzido nas lavouras de tabaco da região um "pacote agroquímico" elaborado pelas indústrias de beneficiamento, visando uma maior quantidade e melhor qualidade nos padrões das folhas de tabaco.

No intuito de divulgar os resultados desta pesquisa coordenada pela UNISC a Profª Drª Virgínia Etges e o Prof. Dr. Marcos A. Fischborn Ferreira, organizaram os textos em forma de coletânea composta de capítulos temáticos. Logo na introdução é apresentada a problemática destacando a necessidade de uma reavaliação e reconversão do atual cenário insalubre em que os agricultores e suas famílias estão inseridos.

O primeiro capítulo trata do impacto negativo que o meio ambiente sofre decorrente do uso indiscriminado de agrotóxicos. Trata desde a análise temporal da cobertura florestal da bacia hidrográfica do Rio Pardinho/RS, a apresentação de dados relevantes quanto a toxidade dos principais fungicidas, herbicidas, inseticidas e pesticidas, presentes em amostras coletadas e analisadas. A presença de metais pesados é confirmada através dos altos índices de Mn (manganês) presentes nos mananciais hídricos. Indicadores alarmantes estão presentes na pesquisa, como o fato de 16% de um total de 147 propriedades agrícolas, utilizarem as áreas dos canteiros, onde o solo está possivelmente contaminado (o que não vem a ser confirmado com os testes de laboratório), para o cultivo de alimentos para o consumo humano

Nos capítulos seguintes são avaliados e entendidos como preocupantes os distúrbios neuro-comportamentais, cardiovasculares e motores, assim como a interrelação saúde mental e trabalho e os aspectos simbólicos que compõem o cotidiano dos agricultores e suas famílias, produtoras de tabaco. A relação de intoxicações aos distúrbios físico-comportamentais é associada ao uso de agrotóxicos, sendo o Mn (manganês) o elemento químico de maior incidência.

A descrição do processo produtivo do tabaco, juntamente a análise dos aspectos sócio-econômicos e possibilidades de diversificação finalizam a obra. Como constatação vale destacar que para o desenvolvimento de alternativas viáveis junto às comunidades em questão, é imprescindível a união dos diversos órgãos que atuam no meio rural, sendo que os paliativos até então apresentados não correspondem à urgência da problemática, ressalta Etges no último texto.

A presente obra contribui de forma significativa para a compreensão de um dos problemas cruciais da região, evidenciados através dos resultados apresentados pela pesquisa, além de representar uma das poucas manifestações em torno da complexa questão que aflige, cada vez mais, a população rural da região. Também pode ser entendida como um aviso da insustentabilidade, ignorada por um lado e promovida por outro, na região. Recomenda-se a leitura deste enriquecedor trabalho, que procura disponibilizar a todos os interessados, o alto grau de risco que a região está exposta.

Notas

¹ Aluno do Curso de Geografia UNISC e bolsista PROBEX do projeto "Gestão das águas na Bacia Hidrográfica do Rio Pardo" - Comitê Pardo.

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