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Núcleo de Pesquisa e Extensão em Gerenciamento de Recursos Hídricos
Comitê de Gerenciamento da Bacia Hidrográfica do Rio Pardo - Comitê Pardo

Boletim Informativo N.º 9/ Ano VIII - Setembro/2006

 

Eucalipto é viável?1
Texto: Diego Vieira da Cunha2

Entende-se que a produção florestal está atualmente em grande desenvolvimento, pois envolve uma área de conhecimento em preservação e conservação de ecossistemas. Porém, o cultivo desta cultura com espécies exóticas, atualmente, vem sendo alvo de observações polêmicas, geradas em relação à expansão das áreas de plantio e aos impactos ambientais daí decorrentes.

Introduzida no Brasil em 1904, a cultura do eucalipto tinha como objetivo suprir as necessidades de lenha, postes e dormentes das estradas de ferro na região Sudeste. Nos anos 50 passou a ser produzido como matéria-prima, principalmente para fábricas de papel e celulose. Durante o período dos incentivos fiscais, na década de 60, sua expansão foi ampliada, perdurando até meados dos anos 80. Esse período foi considerado um marco na silvicultura brasileira dado os efeitos positivos que gerou no setor. Atualmente o país tem cerca de 6 milhões de hectares de produção florestal, sendo que 2,9 milhões há com cultura de eucalipto, utilizada para produzir pasta de celulose, carvão vegetal, resinas, etc.

Em um trabalho relacionado com o manejo inadequado dos recursos hídricos na Ásia, destacou que o eucalipto conduz à desertificação pelo solapamento da produtividade biológica do ecossistema vulnerável através de três maneiras: a) a alta demanda de água da espécie esgota a umidade do solo e destrói a recarga da água subterrânea, desestabilizando o ciclo hidrológico; b) a pesada demanda por nutrientes cria um déficit anual enorme, desestabilizando o ciclo de nutrientes; c) a liberação de substâncias químicas alelopáticas afeta o crescimento de plantas e de microorganismos do solo, reduzindo, assim, ainda mais a fertilidade do solo. As críticas, estão relacionadas com o fato de que o eucalipto é plantado principalmente na forma de monoculturas extensas, as quais são caracterizadas por apresentar baixa diversidade ecológica. Isso poderia, resultar em instabilidade ou vulnerabilidade a mudanças climáticas, assim como ao ataque de pragas e doenças.

Na Europa a introdução dessas "árvores estranhas" despertou enorme sensação, não apenas pela curiosidade geral, mas também pela crença generalizada em seu poder milagroso contra a malária e outras doenças. Já no Brasil isto ocorreu de forma diferente, a partir de 1871, diversas árvores foram plantadas nas ruas e no jardim público da cidade de Vassouras, no Estado do Rio de Janeiro, e em 1882, essas árvores foram arrancadas pela população, que lhes atribuía o aparecimento da febre amarela.

Na África no ano de 1887, com esta produção, afirmou-se que "o clima daquele país estava se tornando mais seco, e que nascentes outrora abundantes encontravam-se agora minguadas, e que os cursos d'água estavam transformando-se em intermitentes".

Em 1965, uma comissão especialmente formada para estudar o problema chegou à conclusão de que as plantações florestais cobriam, na época, apenas de 9 a 14 por cento da região de altos índices pluviométricos do país, e que nenhum dos efeitos observados poderia ser concretamente atribuído ao aumento da área plantada com eucalipto no país.

Uma outra crítica contra o reflorestamento com eucalipto diz respeito aos problemas sociais resultantes da conversão de terras agrícolas em áreas florestadas, que, de certa forma reduz a produção de alimentos e os empregos. Esse aspecto social vem sendo debatido acirradamente na Índia, por exemplo. O problema social dos programas de reflorestamento pode, obviamente, incluir uma ampla variedade de facetas, as quais estão intimamente ligadas, às condições culturais e sócio-econômicas de cada país. Na Índia, a maior parte das plantações florestais para fins de abastecimento industrial é formada pelos Departamentos Florestais Estaduais e por pequenos proprietários rurais, muitos dos quais desistiram da agricultura para se transformar em fazendeiros florestais. Em geral esses fazendeiros recebem as mudas gratuitamente dos Departamentos Florestais. Dessa forma, tal conversão de terras agrícolas em plantações florestais poderia, eventualmente, conduzir à escassez de alimento.
Alega-se, que uma árvore de eucalipto pode consumir cerca de 360 litros de água por dia. Num espaçamento de 2x2 metros, isso equivaleria a uma evapotranspiração diária de cerca de 90 milímetros. Supondo tratar-se do valor correspondente ao pico da transpiração diária, e que a média diária fosse a metade desse valor, ainda assim a evapotranspiração anual alcançaria a cifra astronômica de 16.425 milímetros.

O Brasil tendo uma demanda alta em madeira, vem se tornando um dos maiores países exportadores no ranking do mercado internacional de produtos florestais. No entanto esse aumento da produção industrial não encontra-se no mesmo ritmo de expansão de áreas reflorestadas no país, acarretando significativamente um problema, que no jardão florestal, tem sido chamado de "apagão florestal", analogia criada no começo desta década para escassez de energia.

No entanto, cabe salientar que o impacto ambiental é inevitável: em linhas gerais árvores exóticas reduzem ou acabam com a biodiversidade da fauna e flora, degradam os solos, passando a exigir altos índices de agrotóxicos, contribuindo significativamente para a concentração de terras, de capital e renda. Vazios populacionais, conflitos com povos indígenas, são algumas conseqüências, desta produção, já visíveis no Espirito Santo. Os países do "norte desenvolvido" não demonstram muito interesse nas "novas tecnologias" de ponta (dentro dos rigores ambientais) empregadas nas economias "periféricas e emergentes". Indagamos então: O monocultivo florestal, promove que tipo de desenvolvimento e qual sua viabilidade?


Notas
¹ Este texto foi elaborado apartir de: LIMA, Walter de Paula. Impacto Ambiental do Eucalipto. 2. ed. - São Paulo: Editora da USP, 1996.; e EMBRAPA, disponível em: www.embrapa.br . Acessado em 28/08/2006.
² Acadêmico do Curso de Engenharia Ambiental e bolsista do projeto “ Gestão das Águas dos rios Pardo e Pardinho, RS, Brasil: Desenvolvimento Sustentável com Inclusão Social”.

 

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