Principal > Boletins > Julho 2006

Núcleo de Pesquisa e Extensão em Gerenciamento de Recursos Hídricos
Comitê de Gerenciamento da Bacia Hidrográfica do Rio Pardo - Comitê Pardo

Boletim Informativo N.º 7/ Ano VIII - Julho/2006

 

Princípios Agroecológicos no Vale do Rio Pardo1
Texto: Mizael Dornelles2 (geomiza@yahoo.com.br)

A Agroecologia pode ser entendida, em linhas gerais como ciência ou campo do conhecimento que oferece meios para produção de uma agricultura sustentável. Não pode ser confundida com uma forma de produzir, que é o caso da agricultura orgânica, produção em que são utilizados adubos e insumos fabricados, em maior parte, dentro da propriedade familiar. (CAPORAL e COSTABEBER, 2000).

A partir da década de1950 teve início a "Revolução Verde", que implica no uso indiscriminado de fertilizantes e agrotóxicos de forma intensiva, nas lavouras, para uma efetiva produção privilegiando os monocultivos. Após o Golpe Militar de 1964 foi introduzido no Brasil, maciçamente, este modelo de produção. É conhecida como agricultura convencional por ser o estilo da maioria dos produtores do mundo. Exige determinada quantidade de capital contínuo, causando uma dependência de tecnologias externas no processo produtivo. (AGUIAR, 1986). O fato é que o modelo de produção convencional movimenta bilhões de dólares, e mata milhares de pessoas por ano (PEREZ e ROSEMBERG, 2003).

Somente o lucro e o crescimento econômico, são propostas de desenvolvimento "insustentáveis" e cada vez mais isto está em evidência, frente a sociedade. Atualmente discute-se como preservar os recursos naturais para as presentes e futuras gerações, a partir de um modelo de desenvolvimento economicamente viável, socialmente justo e ambientalmente correto. No Brasil desde a constituição da república de 1988, está descrito no artigo 225 “Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá- lo para as presentes e futuras gerações". Podemos interpretar o equilíbrio ambiental através dos diversos ciclos que interagem e influenciam-se, ou seja, que toda a intervenção neste meio, irá gerar conseqüências, muitas vezes negativas. Vale lembrar que a água antes de mais nada é fundamental para a vida, é finita, é pública, portanto todos têm o direito de ter acesso e o dever de zelar por ela, e uma vez que a agricultura gera alimento, logo, é a base da humanidade, por isso a importância da relação entre ambas.

O uso inadequado dos solos, pode gerar como efeitos mais perceptíveis sobre as águas superficiais a impermeabilização do solo e a erosão. Isto provém da excessiva inserção de fertilizantes e agrotóxicos para manter limpas as superfícies cultivadas, sendo estas, lavadas com as fortes chuvas, que levam a argila para dentro do solo formando lajes duras, causando posteriormente a impermeabilização e erosão. Os resultados diretos são águas que levam terras, agrotóxicos, plantas, tudo para dentro dos rios, que turvam e inundam. Cabe salientar, via de regra, que nas zonas de cultivos intensivos, os problemas relacionados às águas subterrâneas, também tem efeitos críticos, pois os metais pesados presentes nos tóxicos agrícolas despotencializam os lençóis freáticos e ou, como resultado da impermeabilização do solo, secam cacimbas e poços artesianos. (PRIMAVESI, 1998). Torna-se evidente, a necessidade de uma utilização correta das áreas agrícolas, principalmente as situadas próximo ao leito dos rios.

Neste sentido, estudos como "Análise e implantação de sistemas de produção orgânicos na região do Vale do Rio Pardo" desenvolvido junto ao Programa de Desenvolvimento Rural Sustentável da UNISC, oferecem opções que proporcionam tanto o desprendimento econômico-social, de modelos até então impostos, como o equilíbrio dos ciclos, mostrando-se como uma alternativa para a construção de uma melhor harmonia entre homem e natureza. Este trabalho de pesquisa e extensão, teve início em 1998, sob a coordenação da UNISC em parceria com as Secretarias Municipais da Agricultura e Escritórios da EMATER, contando tambem com o apoio do CNPq. A proposta foi contribuir para a produção do conhecimento e desenvolvimento tecnológico, voltados para a diversificação dando ênfase a fruticultura, promovendo ao mesmo tempo a proteção e conservação da biodiversidade, bem como a saúde do agricultor e do consumidor. Para tanto, foram implantadas frutíferas em áreas de aproximadamente 0,5 ha, em propriedades piloto, contemplando 46 agricultores familiares. Finalizado em 2005, os resultados representam acima de tudo, segurança aos que optaram pela diversificação e um estímulo aos que se mostravam descrentes desta possibilidade.

Pessoalmente posso relatar (por ter participado enquanto bolsista deste significativo estudo) que é extremamente válido o aprendizado proporcionado e gratificante a retribuição e reconhecimento dos agricultores e suas famílias, pessoas humildes que procuram viver dignamente. O trabalho ao qual me refiro teve o desafio oferecer possibilidades para a diversificação, apontando atividades e modos alternativos de produção.


Notas

¹ Elaborado a partir de "Análise e implantação de sistemas de produção orgânicos: o caso da região do Vale do Rio Pardo", relatório final, dez 2005.
² Aluno do Curso de Geografia UNISC e bolsista PROBEX do projeto "Gestão das águas na Bacia Hidrogr[afica do Rio Pardo" - Comitê Pardo.

Referências

AGUIAR, Ronaldo C. Abrindo o pacote tecnológico. São Paulo SP. Polis; Brasília DF. CNPq. 1986.
CAPORAL, Francisco R. e COSTABEBER, José A. Agroecologia e desenvolvimento rural sustentável: perspectivas para uma nova Extensão Rural. Agroecologia e Desenvolvimento Rural Sustentável, v.1, n.1, jan./mar. 2000.
PEREZ, Frederico e ROSEMBERG, Brani. É veneno ou é remédio? Os desafios da comunicação rural sobre agrotóxicos. In: PEREZ, Frederico e MOREIRA, Josino C. É veneno ou é remédio? Agrotóxicos, saúde e ambiente. Rio de Janeiro - RJ. Fiocruz, 2003.
PRIMAVESI, Ana. Agroecologia: ecosfera, tecnosfera e agricultura. São Paulo SP. Nobel, 1998.

COMITÊ DE GERENCIAMENTO DA BACIA HIDROGRÁFICA DO RIO PARDO - Comitê Pardo
NÚCLEO DE PESQUISA E EXTENSÃO EM GERENCIAMENTO DE RECURSOS HÍDRICOS - UNISC

Sede: Universidade de Santa Cruz do Sul – UNISC
Av. Independência, 2293, Bloco 13, Sala 1312, Santa Cruz do Sul – RS – CEP 96815-900
Fone/Fax: (51) 3717-7460 – E-mail: comitepardo@unisc.br

COMITÊ PARDO
Sede: Universidade de Santa Cruz do Sul – UNISC
Av. Independência, 2293, Bloco 13, Sala 1312, Santa Cruz do Sul – RS – CEP 96815-900
Fone/Fax: (51) 3717-7460 – E-mail: comitepardo@unisc.br